POLÊMICA — O futuro chegou com cheiro de testosterona sintética e luz neon.
Neste sábado (24), Las Vegas sediou a primeira edição dos Enhanced Games, o torneio esportivo profissional que fez o que décadas de escândalos não conseguiram: tirou o doping do armário e colocou no regulamento. Quarenta e dois atletas competiram com substâncias que baniriam qualquer um dos Jogos Olímpicos. O nadador grego Kristian Gkolomeev quebrou o recorde mundial dos 50 metros livre e levou US$ 1 milhão para casa. A organização gastou mais de US$ 50 milhões para montar o espetáculo. E o debate que o evento acendeu interessa muito a qualquer pessoa que frequente uma academia — porque ele não é sobre atletismo de elite. É sobre o que vem depois.
O que aconteceu ontem em Las Vegas
Quarenta e dois atletas disputaram provas de natação, atletismo e levantamento de peso nas margens do Strip. A grande história foi Gkolomeev, velocista olímpico grego, quebrando o recorde mundial dos 50 metros livre poucas semanas após iniciar um protocolo formal de PEDs (performance-enhancing drugs) supervisionado pela organização. O velocista Fred Kerley registrou 9,97 segundos nos 100 metros; a americana Shania Collins, ex-recordista universitária, também competiu.
Antes do evento, 36 dos 42 atletas passaram por uma fase de treinamento em Abu Dhabi, no Sheikh Shakhbout Medical City, onde participaram de um ensaio clínico. Os dados divulgados pela organização revelam o cardápio: testosterona (91% dos atletas), hormônio do crescimento (79%), Adderall (62%), eritropoietina (41%) e Deca-Durabolin (29%), além de modafinil e GLP-1s. O prêmio total ultrapassa US$ 25 milhões em bolsas e bônus por recorde.
Quem está por trás
O fundador é Aron D'Souza, empreendedor austríaco que há anos defende abertamente a liberação de PEDs no esporte. O maior investidor é o bilionário alemão Christian Angermayer, que injetou US$ 20 milhões na empresa, hoje avaliada em US$ 1,2 bilhão. Segundo a ESPN, o projeto também é ancorado em figuras do ecossistema político e financeiro da direita libertária americana, que enxerga regulação antidoping como paternalismo estatal. O CEO Max Martin apresenta o evento como uma "fronteira científica": deixar atletas usarem substâncias FDA-aprovadas e monitoradas seria, segundo a organização, mais seguro do que o doping clandestino do esporte olímpico.
A controvérsia médica que não fecha
A crítica acadêmica não é sobre moral esportiva — é sobre metodologia e consequências de saúde. Martin Chandler, pesquisador da Universidade de Birmingham com vinte anos de estudo sobre PEDs, aponta à ESPN que o grupo de controle reduzido invalida qualquer conclusão clínica robusta e que os efeitos cardiovasculares de doses elevadas de testosterona em longo prazo ainda são pouco conhecidos. O coração de um nadador de 28 anos que tomou GH e EPO por seis meses não vai sofrer as consequências hoje — vai sofrer daqui a quinze anos.
O bioeticista Tom Murray, presidente emérito do Hastings Center, foi mais direto: chamou os Enhanced Games de "um esquema de marketing desenhado para vender drogas". A leitura é que o torneio é menos sobre atletismo do que sobre criar um case público para normalizar o uso de PEDs — e turbinar o mercado de telemedicina e clínicas hormonais que orbitam o evento. A WADA, criada em 1999, ainda não emitiu comunicado específico — silêncio lido pela imprensa americana como recusa a dar legitimidade ao evento.
O efeito-ricochete na academia da esquina
Aqui é onde a notícia interessa ao frequentador de academia que nunca competiu em nada. O crescimento de clínicas de TRT (terapia de reposição de testosterona) no Brasil e nos Estados Unidos já criou uma zona cinzenta onde a linha entre reposição clínica e doping recreativo é traçada com caneta a água. Em 2024, a ANVISA apertou o cerco à prescrição de testosterona por telemedicina, mas o mercado paralelo de SARMs segue crescendo em plataformas de e-commerce sem supervisão.
Os Enhanced Games entram nesse contexto como máquina de legitimação cultural. Quando um atleta olímpico bate recorde mundial ao vivo usando testosterona e EPO sem esconder, a mensagem que chega ao usuário de 22 anos que compra SARMs no Instagram não é "isso é controverso". É: "funciona, e os caras sérios usam". O mesmo mecanismo que a indústria do cigarro conhecia bem.
Por ora, Gkolomeev está US$ 1 milhão mais rico e tem o recorde mundial. O debate vai durar muito mais do que o nado.
Este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento médico individualizado. O uso de substâncias como testosterona, hormônio do crescimento, eritropoietina e anabolizantes esteroides sem prescrição e supervisão médica é ilegal no Brasil e apresenta riscos cardiovasculares, hepáticos e endócrinos documentados.
Fontes
- ESPN — "Are steroids the future? At the Enhanced Games, that future is now":
espn.com/olympics/story/_/id/48836584/enhanced-games-doping-steroids-performance-enhancing-drugs-controversy(Tier 3 — fonte da notícia) - Martin Chandler, pesquisador da Universidade de Birmingham, via ESPN (Tier 2 — pesquisador reconhecido, 20 anos de estudo em PEDs)
- Tom Murray, presidente emérito do Hastings Center, via ESPN (Tier 2 — bioeticista institucional)
- WADA — World Anti-Doping Code, critérios de proibição de substâncias:
wada-ama.org/en/what-we-do/the-code(Tier 1 — órgão oficial) - ANVISA — Resolução RDC 204/2017 e normativas sobre substâncias controladas:
gov.br/anvisa(Tier 1 — órgão regulatório oficial)



